O telefone toca. Não vibra, não avisa. Toca.
Você atende sem saber por quê. A linha está limpa. Do outro lado, silêncio — aquele segundo em que tudo pode acontecer.
Então a voz começa.
"Eu não vou tomar muito do seu tempo. Só preciso dizer o que ficou atravessado enquanto você seguia funcionando."
Você reconhece o timbre. Não lembra de onde. Talvez porque seja antigo demais. Talvez porque seja seu.
A ligação não pergunta se é um bom momento. Momentos importantes raramente pedem permissão.
Ela fala das decisões que você empurrou com a barriga, chamando de estratégia. Dos cansaços que você tratou como fase. Da coragem que você prometeu resgatar quando tudo estivesse resolvido.
Há uma pausa. Você pensa em responder, mas a voz continua.
"Você aprendeu a ser forte rápido demais. Transformou urgência em rotina. Aguentou mais do que devia. E aguentou. Mas ninguém te contou que sobreviver não é o mesmo que viver."
Não há acusação. Só constatação.
Lembra do dia em que quase desligou de si mesmo? Estava ocupado demais sendo necessário. Forte demais para admitir que estava vazio.
Do outro lado da linha, alguém respira fundo.
"Não estou ligando para te salvar. Só para lembrar que você pode escolher atender menos expectativas e mais vontades. Que pode desligar algumas cobranças sem perder quem você é."
O silêncio volta. Dessa vez, confortável.
Antes de encerrar, a voz deixa um recado simples:
"Quando tudo virar barulho, lembra: você não precisa explicar seus limites para continuar inteiro."
A ligação cai.
O telefone fica na sua mão por alguns segundos a mais do que o necessário.
Você não sabe exatamente o que fazer com o que ouviu. Mas sabe que ouviu.
E isso já muda alguma coisa.